Há mais tempo que vida. Esta antiga frase mexicana, tradicionalmente associada à cultura do ócio, mostra-se na prática e a cada dia como uma preciosa pérola de sabedoria.
É irônico, pois a fonte e a própria base de sustentação da importante mudança que está ocorrendo na relação lazer-trabalho é a tecnologia. A mesma que até recentemente era tão criticada, considerada “inimiga número um” da qualidade de vida, seja por seu potencial de despersonalização, seja pelo seu poder invasivo em relação à privacidade dos indivíduos. Só que não é bem assim. Como a maioria das ferramentas desenvolvidas pelo homem, cabe somente a ele optar pela melhor aplicação. A tecnologia não é exceção.
Pode ser usada tanto a favor do bem-estar individual e do progresso da humanidade, como seu algoz, ao restringir criatividade, liberdade e satisfação das pessoas.
No mundo corporativo, convivemos com uma nova realidade: a mobilidade e a realização da produção a qualquer tempo, em qualquer lugar. O melhor exemplo é a conquista do trabalho em casa, que libertou o profissional das quatro paredes corporativas e do trânsito diário infernal das grandes cidades, mas que ainda exige um ponto de equilíbrio entre a dedicação aos negócios e mais tempo livre para o lazer.
As notáveis conquistas da ciência, que permitem estender a expectativa de vida e as condições de saúde dos mais idosos, estão demolindo antigos padrões de comportamento.
O envelhecimento foi - e continua a ser - empurrado pela ciência para faixas etárias mais avançadas, sem limites. A saúde preventiva, a disseminação dos esportes, e o prazer de viver com qualidade, conspiram para duas coisas: tornar o segmento que explora o lazer mais poderoso, e fazer dos modelos financeiros de previdência um desafio insolúvel.
Assim, o verdadeiro desafio está mais no campo pessoal e psicológico do que científico propriamente dito. Usufruir dessa nova conquista depende de cada um. Pela primeira vez na história, somos senhores absolutos do tempo. E isto tem um impacto forte no dia-a-dia. O progressivo resgate da Filosofia, que nos acompanha desde a antigüidade e que hoje se torna tema predileto de dez entre dez livros de auto-ajuda e matérias de capa de revistas, sinaliza o início de uma nova era.
Nesse novo contexto, o uso inteligente da tecnologia deverá tornar-se matéria educacional obrigatória, fazendo do progresso um instrumento do desenvolvimento pessoal e social - este último particularmente importante para o Brasil.
É que a cada dia será possível fazer mais com menos, graças a fatores como sinergia, produtividade e globalização - que abandonaram de vez o mundo dos negócios para desembarcar no cotidiano das pessoas. Explico: com a queda dos custos e a disseminação de técnicas, é possível democratizar metodologias, práticas, informação e cultura.
Como conseqüência, o acesso a produtos e serviços, antes restritos a sociedades avançadas ou elites privilegiadas, se amplia. Cabe a nós, que atuamos no campo da tecnologia, especialmente da Tecnologia da Informação, liderar o processo de transição da sociedade.Precisamos zelar para que a utilização das ferramentas que produzimos seja feita de forma adequada, ética e em prol do homem. Devemos explorar cada oportunidade e evitar distorções desses propósitos nobres.
Em suma, temos de assumir o compromisso de transformar a tecnologia de ponta não apenas em fator de progresso econômico, mas de qualidade de vida e desenvolvimento social.
